O amor permite visualizar!
por Peterson Macêdo
Suave e sutil são palavras que de longe adjetivam "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho", filme do Daniel Ribeiro baseado no curta-metragem "Eu Não Quero Voltar Sozinho", do mesmo autor. É, eu sei que é um pouco tarde para falar do longa, mas me dispus a escrever essa review, primeiro, porque me senti na obrigação de comentar sobre, e depois, quero dar entrada ao meu trabalho aqui no portal.
Construída cronologicamente, a história atemporal segue... na verdade, não segue nada específico. O filme é simplesmente uma síntese de vários componentes cotidianos presentes na vida de um adolescente. Para isso, é centralizado o Leonardo (Guilherme Lobo), estudante de ensino médio passivo a esses vários elementos: questionamentos, sentimentos, inseguranças, sexualidade, bullying, imediatismo, independência, curiosidades, etc.. No caso do Leozinho (impossível não sentir-se próximo) há também o fator cegueira presente como um fato-metáfora. O cego do olhar inocente. Durante a história, nenhum desses ingredientes parece ganhar atenção exacerbada o suficiente para torna-se tema do filme.
É curiosa uma observação que pode ser feita entre o curta e o longa. O
segundo reconta os mesmos fatos ocorridos no primeiro, mas de modo bem
mais aprimorado. No entanto, soa até como continuação (embora realmente
não seja), visto que há uma evolução(ou mudança, mesmo) do personagem
"Leo". Enquanto no curta ele mostra-se satisfeito com tantos favores a
ele feitos, em "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho", Leo demonstra irritação
com tamanha preocupação de seus pais e da Giovanna, questionando a todo
momento do porque com ele tem que ser diferente e mostrando a todo
instante que pode mais do que pensam,
A medida em que conhece o novo colega de classe Gabriel (Fábio Audi), Léo faz ruptura de pressupostos e nos delicia com curiosas sequências, como quando se dispõe a ir ao cinema ou "assistir" a um eclipse. Ah, onde já se viu? Então a chegada do Gabriel fecha o dinâmico trio com o Léo e a Giovanna (Tess Amorim) - melhor amiga do Leonardo e aparentemente apaixonada por ele - risos-.
Risos porque o Léo logo descobre estar apaixonado pelo Gabriel, tendo que lidar com os ciúmes da amiga, e sua homossexualidade é expressa de modo extremamente natural, sem ênfase necessária. :O, mas ele é gay, e ele é cego, tem que abordar... Mas, nada! Para Daniel Ribeiro, trata-se de só mais um detalhe dentre tantos outros. É perceptível essa despretensão principalmente no indireto posicionamento dos familiares do Léo quanto ao assunto, desde as expressões da mãe e avó quando ele recebe o Gabriel em casa, até a conversa que o pai tem com o garoto na hora de fazer a barba inexiste (ok, no coments). Uma aspiração utópica do que deveria ser a realidade.
A tímida edição de "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" até lembra um pouco
"As Vantagens de Ser Invisível" (2012), principalmente quando acoplada
aos leves diálogos que despretensiosamente nos fazem sorrir e às
sequências de uma liberdade que todo mundo busca, acompanhadas de uma
trilha sonora em perfeito consenso com o ambiente e enredo do filme. Outra semelhança com a citação supracitada é que o longa é marcado também por um elemento que torna-se mascote, que é a máquina de escrever em Braile, enquanto em As Vantagens, trata-se de uma máquina de datilografia.
E quanto a moral, a história não parece intencionalmente ter moral. Ao meu ver, o despojamento de Hoje Eu Quero por si só já passa, com êxito uma mensagem e nos remete a uma série de sensações durante seu decorrer. Por fim, podemos então dizer que o filme pode tratar de um gay, um cego, um adolescente, um adolescente que sofre bullying, um curioso, um rebelde em busca da liberdade, um garoto em conflito interno, um inseguro e um sonhador. Pode tratar também de uma apaixonada que não tem seu amor correspondido (quem nunca?) ou até mesmo de uma amizade singela apenas, ou duas, talvez. Considere-se então inconcebível a ideia de que alguém não identifique-se com ao menos um personagem ou problemática de "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho". Dos adolescentes aos adultos que remetem-se a tempos passados. São como se esses elementos, linearmente posicionados, formassem um Eclipse. "- E você seria o sol, bonitão?". - "Não, vai, depende, se o eclipse fosse solar, você seria o sol, bonitona".
Trailer Oficial do Filme:




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